sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago


Retrato do poeta quando jovem



José Saramago




Há na memória um rio onde navegam


Os barcos da infância, em arcadas


De ramos inquietos que despregam


Sobre as águas as folhas recurvadas.






Há um bater de remos compassado


No silêncio da lisa madrugada,


Ondas brancas se afastam para o lado


Com o rumor da seda amarrotada.






Há um nascer do sol no sítio exacto,


À hora que mais conta duma vida,


Um acordar dos olhos e do tacto,


Um ansiar de sede inextinguida.






Há um retrato de água e de quebranto


Que do fundo rompeu desta memória,


E tudo quanto é rio abre no canto


Que conta do retrato a velha história
 
 
 
 
 
Em homenagem

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