sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Marina sinaliza neutralidade e vê futuro na 3a via

A senadora Marina Silva (PV-AC), terceira colocada no primeiro turno da eleição presidencial, está evitando sair ao ar livre. Nas últimas vezes, ela causou polêmica na rua ao receber conselhos de que deveria apoiar Dilma Rousseff (PT) ou José Serra (PSDB) nesta reta final da disputa.
É muito provável, no entanto, que os eleitores não vejam Marina em palanque algum. Ela sinalizou em entrevista à Reuters que deverá ficar neutra, independente da decisão do PV no próximo domingo.
Marina, a ambientalista que ficou em terceiro lugar na eleição de 3 de outubro com quase 20 milhões de votos, não explicitou sua posição e nem a de seu partido, mas disse que se sente frustrada com o tom agressivo dos dois candidatos e reiterou que não vê grande diferença entre eles.
"Ambos são muito parecidos. Ambos têm uma visão desenvolvimentista. Eles têm um perfil gerencial. O Brasil não precisa de gerente, precisa de quem tem visão estratégica", disse Marina na entrevista.
Ela acredita que tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso (PSDB), demonstraram visão estratégica ao se colocar à frente de projetos sociais e de programas para conter a inflação, respectivamente.
"O Brasil continua precisando de visão estratégica. Quando você tem visão estratégica, você consegue os melhores gerentes. Quando você é apenas um gerente, a gente pode perder o rumo do que precisa ser feito", declarou.
Em sentido oposto, o presidente do PV, José Luiz Penna, se colocou frontalmente contrário à neutralidade do partido, em entrevista à Reuters há dez dias. E já existem casos de adesão de lideranças do PV tanto a Dilma quanto a Serra, declaradas nos últimos dias.
Por enquanto, o PV está em conversas com as equipes de Dilma e Serra tendo como base documento com dez propostas dos verdes. A aceitação dos itens é vista como condição para a decisão de apoio.

TERCEIRA VIA
A senadora evitou detalhar seu futuro. Disse que não há decisão "a priori", mas deixou claro que vai continuar em busca de uma terceira via, distinta dos principais partidos majoritários.
Citando o pensador francês Edgar Morin, afirmou que faz parte de uma "comunidade de pensamento", termo indicado por ele.
"Eu me disponho a fazer parte desta comunidade de pensamento. Espero que essa nova visão da política seja relevante para o Brasil e que não se disperse essa sinalização embrionária que foi dada nessas eleições, de que temos a possibilidade de construir uma terceira via", disse.
Sentada ao lado de um exemplar da Bíblia, Marina, evangélica da Assembléia de Deus, disse que sentiu preconceito durante o primeiro turno da eleição já que apenas a ela eram feitos questionamentos sobre religião. Agora que está fora da disputa, viu o tema crescer e atingir os dois candidatos.
"Quando Lula era candidato apareciam questionamentos, mas não com essa relevância", disse, sem exibir surpresa. Questionada sobre os motivos desta ampliação, disse apenas que seria "uma boa tese para os analistas".
Marina se emocionou apenas uma vez na entrevista, quando foi questionada sobre se tinha virado "moda". Ela respondeu que sua fama é resultado do trabalho de toda uma geração que luta em favor do meio ambiente.
"Isso é fruto do trabalho de muita gente ao longo de 30 anos. Eu não posso me apropriar individualmente disso. Quando as pessoas fazem um referência à questão ambiental ou a mim eu sei que estão se referenciando nesses 30 anos de luta sócio-ambiental do Brasil, onde vi o Chico Mendes ser assassinado", afirmou. Seringueiro e ativista, Chico Mendes foi assassinado em 1988.
PRESSÕES
Apesar de elogiar o presidente Lula, Marina não deixa de explicitar pressões que recebeu quando ocupou a pasta do Meio Ambiente (2003-2008), citando nominalmente o ex-ministro da Agricultura Reinhold Stephanes, o ex-secretário de Assuntos Estratégicos Mangabeira Unger e o ex-governador do Mato Grosso Blairo Maggi.
Sobre os projetos que implantou, destacou a divulgação em tempo real dos dados de desmatamento, o que considera inédito.
"O plano foi mantido depois que eu saí porque tinha transparência. Blairo Maggi questionava, Mangabeira questionava, Stephanes questionava, mas a academia toda e as ONGs iam lá e viam que a gente estava fazendo certo e o presidente Lula não teve como revogar as medidas", afirmou.



Reuters

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