quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Bravura indômita e a brutalidade em amadurecer

Alguns fatos mudam a vida das pessoas. Quando você aos 14 anos perde o pai e quer se vingar, a inocência se dissipa na poeira da sua busca

Em Bravura indômita, Mattie Ross teve sua juventude roubada pelo trágico acontecimento e então começa sua jornada, de forma obstinada. Guarda inclusive semelhanças com Ree Dolly (personagem de Jennifer Lawrence em O inverno da alma), mas o desafio de Ross é maior.

Reuben J. Cogburn (brilhantemente interpretado por Jeff Bridges) é um personagem fascinante. Tua índole é colocada à prova a cada cena do longa metragem, provocando reações diversas.
O embate psicológico entre Cogburn, Ross e La Boeuf (Matt Damon) conduzem a história intensamente. O título do filme é representado em quase todas as cenas, por cada um dos principais personagens. Mas de forma absolutamente natural, ninguém ali precisa provar nada e simplesmente seguir adiante atrás de seus objetivos, que pode ser uma boa noite de sono ou não se abater pela longa estrada que a aguarda e te aflige.
Ao final, percebe-se que o destino reserva um lugar especial aos bravos, que como bem diz o agente funerário: "it will be alright". E que definitivamente, não há lugar para os bonzinhos, que são abatidos sem a menor piedade.

Bravura indômita é o filme a ser batido no Oscar. Mais intenso que o belo e aterrorizante Cisne negro, mais interessante que o sonolento 127 horas e mais profundo que O vencedor.

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É comum comparar o livro e o filme, quase sempre para concluir que o livro é melhor e mais completo. Não é o caso de Bravura indômita. O filme dos irmãos Coen é tão bom quanto o romance de Charles Portis. E por um motivo: os americanos inventaram a tradição do faroeste e a elevaram a categoria de arte. Assim como os westerns no cinema se tornaram um gênero épico, os romances de bangue-bangue são também um capítulo da literatura de entretenimento dos EUA, só que sem o mesmo sucesso fora do país, como por exemplo os policiais de Dashiell Hammett e Raymond Chandler.

Charles Portis, nascido no Arkansas em 1933, escreveu uma história que pode ser filmada do começo ao fim a partir dos diálogos e descrições sem firulas. É só ligar a câmera. O estilo do romance – narrativa irônica, ceticismo, personagens derrotados, ações inusitadas, humor amargo, desencanto, sensação de que não se sabe bem o que está acontecendo e boas doses de silêncio (é preciso ser bom de escrita para dizer algo sem usar palavras) – se parece com o jeito dos Coen de fazer cinema. Nasceram um para o outro. Por isso faz pouca diferença por onde começar, pelo romance ou pela fita. Nos dois casos, a sensação vai ser parecida.

O leitor e o espectador vão se divertir, mas com uma carga de tristeza pelo fato de descobrir que, bem pesadas tantas atribulações, a vida não vale a pena e os valores pelos quais uma existência se justifica parecem ter mudado de sinal com o tempo. Aos 14 anos, a narradora de Bravura indômita carrega um tipo de sabedoria madura que não faz muita falta, mas que é melhor que nada: no fim das contas, todos sabemos onde vai dar a estrada, mesmo que sejamos bravos e indômitos. Frente ao inevitável, o melhor é ler um bom romance ou ir ao cinema para passar o tempo.

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