sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Militares tentam pôr fim à crise no Egito; protestos continuam

Irritados com a recusa do presidente Hosni Mubarak em deixar o poder, milhares de manifestantes planejavam se dirigir nesta sexta-feira da praça Tahrir até o palácio presidencial do Egito, e há temores de um confronto com os militares que cercam o local.
O poderoso Exército egípcio anunciou durante o dia que suspenderá a lei do estado de emergência no país "assim que as atuais circunstâncias chegarem ao fim", concedendo a uma exigência-chave dos manifestantes contrários ao governo, mas indicando que quer as pessoas fora das ruas.
O Exército disse em comunicado que "confirma a suspensão do estado de emergência assim que as atuais circunstâncias chegarem ao fim", uma promessa de que retiraria a lei imposta há 30 anos, que segundo manifestantes é usada para reprimir dissidências.
Também foi garantida uma eleição livre e justa, mudanças constitucionais e proteção para a nação.
As garantias foram vistas como um grande esforço dos militares de pôr fim à pior crise na história moderna do Egito, mas um claro sinal de que quer que os manifestantes deixem as ruas.
Enquanto isso, dezenas de milhares de pessoas estavam reunidas desde a manhã na praça Tahrir (Libertação) à espera das orações do meio-dia, enquanto soldados em tanques e veículos blindados se punham de prontidão para mais um dia de protestos no Cairo, o 18.
Outras dezenas de manifestantes já se aglomeravam em frente ao palácio, exigindo que Mubarak renuncie e que o Exército não tente depô-lo, segundo uma testemunha da Reuters. Arames farpados e seis tanques e blindados separavam o grupo do palácio.
"Abaixo, abaixo Hosni Mubarak!," gritavam os manifestantes, que aparentemente foram autorizados a se aproximar do palácio, no bairro de Heliópolis. Um cartaz com a mesma frase foi colocado no arame farpado que bloqueava um dos acessos à residência presidencial.

IMPASSE

O Exército prometeu respeitar os direitos dos manifestantes, mas o prolongado impasse político coloca tal disposição à prova, num momento em que muitos egípcios se mostram ávidos pelo fim dos transtornos econômicos causados pelas manifestações, enquanto os militares desejam mostrar que são capazes de impor a ordem.

A indignação dos manifestantes cresceu na quinta-feira à noite, com um pronunciamento de Mubarak pela TV. Havia ampla expectativa de que ele renunciaria, mas em vez disso o presidente - no poder há 30 anos - disse que iria transferir atribuições a seu vice, Omar Suleiman, e reiterou que só deixará o cargo após as eleições de setembro.
Horas antes, o Exército divulgara um "Comunicado No 1", em que dizia estar no controle do país, o que despertou rumores sobre um golpe de Estado.
"As Forças Armadas estão aí para proteger os manifestantes e para proteger o país, mas os poderes foram transferidos, não para os militares, mas para o vice-presidente", disse o ministro das Finanças, Samir Radwan, em entrevista à Reuters.
As manifestações no Egito - mais populoso país árabe e importante aliado dos EUA na região - começaram em 25 de janeiro, parcialmente inspiradas na rebelião que derrubou o governo da Tunísia e ameaça agora se espalhar para outros países da região.
Um membro de um dos movimentos juvenis envolvidos nos protestos disse que os manifestantes pretendem "tomar o palácio" na sexta-feira, dia das principais orações islâmicas da semana. "Teremos massas de egípcios depois da prece de sexta-feira para tomá-lo", declarou Ahmed Farouk, 27 anos. "O Exército tem sido neutro e não fez mal a nenhum de nós."

"Vamos marchar até o palácio e derrubar Mubarak, e sabemos que o mundo está do nosso lado", disse outro manifestante, Nurhaan Ismael, de 34 anos. "O Exército está tranquilo no momento. Eles colocaram arame farpado em volta (dos acessos ao palácio), mas sabem que a vontade do povo derrubará qualquer coisa."

O hino nacional foi executado na praça Tahrir pouco antes da prece do meio-dia (8h em Brasília), e depois do ato religioso deve começar o evento político.
A posição do Exército - seja dos generais com intimidade com a política, seja os recrutas e oficiais de baixo escalão, oriundos das camadas mais pobres - será crucial para o rumo dos acontecimentos.
"Isso coloca um real dilema para o Exército", disse Rosemary Hollis da City University, de Londres. "Será que eles vão permitir que os manifestantes ampliem suas manifestações até que cheguem ao ponto em que Mubarak terá de sair, e isso significa que o Exército rompe definitivamente com Mubarak? Os manifestantes estão muito frustrados, e haverá violência."



Reuters

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