segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Protestos chegam a Trípoli e ameaçam regime de Gaddafi


As quatro décadas de governo do líder líbio Muammar Gaddafi ficaram sob risco crescente com a chegada pela primeira vez dos manifestantes de oposição à capital do país, nesta segunda-feira. Segundo relatos de testemunhas, dezenas de pessoas morreram em confrontos com as forças de segurança.

Várias cidades do leste do país pareciam estar nas mãos da oposição, que avançou desde Benghazi, o epicentro na Líbia das manifestações populares contra os governos autoritários do mundo árabe.

Manifestantes antigoverno fizeram protestos nas ruas de Trípoli, líderes tribais e religiosos se manifestaram contra Gaddafi e unidades do Exército aderiram à oposição, em uma revolta que já custou a vida de mais de 200 pessoas.

O ministro das Relações Exteriores britânico, William Hague, disse ter obtido informações que indicariam que Gaddafi estaria viajando para a Venezuela, mas uma fonte do governo do presidente Hugo Chávez negou a informação.

Um dos filhos de Muammar Gaddafi disse que o líder veterano vai combater "até o último homem que estiver de pé" a revolta popular que abalou seu governo.

A oposição disse ter assumido o controle de Benghazi e outras cidades, desafinado o controle com mão de ferro de Gaddafi. Alguns analistas sugeriram que o país estaria a caminho de uma guerra civil.

Pelo menos nove cidades no leste da Líbia, entre elas Benghazi, Zuara e Zlitan, estão sob o controle de manifestantes leais a grupos tribais, disse à Reuters o presidente da Federação Internacional dos Direitos Humanos, na França.

"A Líbia é a mais provável candidata a passar por uma guerra civil, porque o governo perdeu o controle sobre parte de seu próprio território", disse Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Centro Brookings Doha, no Catar.

A produção em um dos campos petrolíferos do país teria sido interrompida por uma greve dos trabalhadores, e algumas empresas petrolíferas europeias suspenderam suas operações e tiraram funcionários estrangeiros do país. A maioria dos campos de petróleo da Líbia se situa no leste, ao sul de Benghazi, berço da turbulência atual.

Protestos antigoverno também explodiram na cidade central de Ras Lanuf, sede de uma refinaria de petróleo e um complexo petroquímico, informou o jornal líbio Quryna em seu site na Internet na segunda-feira.

RENÚNCIAS

Em sinais de desacordo dentro elite governante líbia, o ministro da Justiça renunciou a seu cargo em protesto contra o "uso excessivo de violência" contra manifestantes.

Na Índia, o embaixador líbio anunciou sua renúncia em protesto contra a repressão violenta.

Uma coalizão de líderes muçulmanos líbios disse a todos os muçulmanos que é seu dever rebelar-se contra a liderança líbia, em função de seus "crimes sangrentos contra a humanidade".

Países europeus estão assistindo ao desenrolar dos acontecimentos na Líbia com um sentimento crescente de preocupação, depois de o governo de Trípoli ter dito que vai suspender a cooperação na repressão ao fluxo de imigrantes ilegais que atravessam o Mediterrâneo em direção à Europa.

O primeiro-ministro britânico David Cameron, em visita à região, disse que os acontecimentos na Líbia são chocantes e inaceitáveis.

A televisão Al Jazeera citou fontes médicas como tendo dito que 61 pessoas morreram nos protestos mais recentes em Trípoli.

A emissora disse que forças de segurança estão saqueando bancos e outras instituições governamentais em Trípoli e que manifestantes tinham invadido e depredado várias delegacias de polícia.

Um repórter da Reuters em Trípoli disse que moradores da cidade estão fazendo estoques de produtos essenciais, aparentemente prevendo novos enfrentamentos após o anoitecer. Havia longas filas diante de lojas de alimentos e em postos de combustíveis.

O prédio em que o Congresso Geral do Povo, ou Parlamento, se reúne em Trípoli foi incendiado na segunda-feira, assim como uma delegacia de polícia em um dos subúrbios da zona leste da capital.

"ATÉ O ÚLTIMO HOMEM DE PÉ"

Um filho de Gaddafi, Saif al-Islam Gaddafi, apareceu na televisão nacional em uma tentativa de ameaçar e também tranquilizar a população, dizendo que o Exército implementará a segurança a qualquer preço para reprimir uma das revoltas mais sangrentas do mundo árabe.

"Vamos continuar a lutar até o último homem que estiver de pé ou até mesmo à última mulher", disse ele no domingo.

Mas pessoas em Trípoli expressaram indignação com o discurso.

Uma líbia que disse se chamar Salma afirmou: "O discurso foi muito, muito ruim".

"Foi muito decepcionante, porque ele ameaçou o povo líbio com matanças, fome e incêndios. Não ofereceu misericórdia pelas almas dos mártires mortos."

Outro homem comentou: "Esperávamos algo que fosse bom para nós, para os jovens, para acalmar a ira, mas ele não fez nada".

Partidários de Gaddafi estavam na praça Verde, no centro de Trípoli, na segunda-feira, agitando faixas e carregando o retrato do governante.

Em Al Bayda, cidade situada a 200 quilômetros de Benghazi, que na semana passada foi palco de enfrentamentos mortais entre manifestantes e forças de segurança, um morador disse à Reuters que os manifestantes também estão no comando.

Reuters

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