segunda-feira, 14 de março de 2011

Japão luta contra crise nuclear após ser devastado por terremoto


Engenheiros japoneses se empenhavam na terça-feira (horário local) em evitar o colapso em uma usina nuclear, enquanto equipes de resgate tentavam ajudar milhões de pessoas que ficaram sem comida, água ou aquecimento por causa do terremoto e do tsunami de sexta-feira no nordeste do país.
Uma segunda explosão abalou o complexo nuclear de Fukushima na segunda-feira, e a rápida redução no nível da água expôs barras de combustível nuclear em outro reator, mas a agência nuclear da Organização das Nações Unidas (ONU) disse ser improvável um acidente na mesma escala do de Chernobyl.
Equipes de resgate procuram sobreviventes nas áreas costeiras atingidas pelo tsunami, ao norte de Tóquio. As autoridades estimam que pelo menos 10 mil pessoas tenham morrido por causa do tremor de magnitude 8,9 e do tsunami que aconteceu depois.
"É um cenário infernal, absolutamente aterrorizante", disse Patrick Fuller, da Federação Internacional da Cruz Vermelha em Otsuchi, cidade costeira no nordeste japonês.
O primeiro-ministro, Naoto Kan, disse que o Japão atravessa sua pior crise desde a Segunda Guerra Mundial. Os prejuízos são estimados em até 180 bilhões de dólares, e analistas avaliam que a economia japonesa, terceira maior do mundo, poderá voltar à recessão.
As ações de empresas japonesas fecharam em queda superior a 7,5 por cento, eliminando do mercado uma capitalização de 287 bilhões de dólares, na maior queda desde o auge da crise financeira de 2008. As ações das seguradoras tiveram queda pelo segundo dia consecutivo nas bolsas de Londres e Nova York.
No complexo de Fukushima, 240 quilômetros ao norte de Tóquio, o maior temor é de que haja um grande vazamento de radiação. Dois dos reatores da usina tiveram explosões no sábado e na segunda-feira, deixando uma nuvem de fumaça na região.
Esse acidente nuclear, o pior no mundo desde o de 1986 em Chernobyl (Ucrânia), reavivou em muitos países a discussão sobre a segurança da energia atômica. Críticos dizem que o governo japonês estava mal preparado para a situação.
A Suíça decidiu adiar a emissão de algumas autorizações para novas usinas nucleares, e a Alemanha desistiu de prorrogar a vida útil das suas instalações atômicas. Já a Casa Branca disse que o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, continua sendo um adepto da energia nuclear.

PREOCUPAÇÃO NUCLEAR

O diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Yukiya Amano, disse que os vasos dos reatores nucleares afetados permanecem intactos, e que até agora a quantidade de radiação liberada é pequena.
"As autoridades japonesas estão se empenhando ao máximo, sob circunstâncias extremamente difíceis, para estabilizar as centrais nucleares e garantir a segurança", disse Amano em nota, acrescentando numa entrevista coletiva posterior que é "improvável que o acidente vá se desenvolver" como o de Chernobyl.
A empresa Tokyo Electric Power (TEPCO), que opera a usina, disse que as barras de combustível no reator número 2 foram totalmente expostas, o que pode levar ao seu derretimento.
As barras, normalmente imersas em água para ficarem resfriadas, haviam sido parcialmente expostas antes, quando o motor que bombeia essa água ficou sem combustível. A TEPCO disse que estava se preparando para bombear mais água para resfriar as cápsulas.
As barras de combustível dos reatores 1 e 3, onde as explosões ocorreram, já haviam tido derretimentos parciais. Um funcionário da TEPCO disse que a situação no reator número 2 é ainda pior do que nas outras unidades.
O eventual derretimento eleva o risco de danos ao corpo do reator e de um possível vazamento radioativo.
"Se a água de resfriamento não é devolvida, o núcleo pode se derreter em uma questão de horas", disse Edwin Lyman, da entidade União de Cientistas Preocupados, que faz campanhas por mais segurança nas instalações nucleares.
As autoridades recomendaram que as pessoas que vivem num raio de 20 quilômetros em torno da usina não saiam de casa, mas disseram que as espessas paredes em torno dos núcleos radioativos dos reatores parecem estar intactos após a primeira explosão de hidrogênio.
"Isso não é nada como Chernobyl", disse o especialista nuclear Murray Jennex, da Universidade Estadual de San Diego (EUA). "Em Chernobyl não havia nenhuma estrutura de contenção. Quando explodiu, foi tudo direto para a atmosfera."
Por via das dúvidas, navios e aviões militares dos Estados Unidos envolvidos nas tarefas de auxílio se afastaram da costa japonesa após registrarem um nível discreto de radiação. Coreia do Sul, Hong Kong, Cingapura e Filipinas decidiram examinar o grau de radiatividade em alimentos importados do Japão.

CIDADES ARRASADAS

No norte do Japão, cerca de 850 mil famílias ainda estão sem eletricidade e calefação, com temperaturas próximas a zero grau Celsius, segundo a empresa Tohuku Electric Power. O governo afirmou que pelo menos 1,5 milhão de domicílios estão sem água corrente. Há dezenas de milhares de desaparecidas.
"A situação aqui é simplesmente inacreditável, quase tudo foi arrasado", disse Fuller, da Cruz Vermelha, em Otsuchi, uma cidade que foi praticamente varrida do mapa.
"O governo está dizendo que 9.500 pessoas, mais da metade da população, podem ter morrido, e eu temo pelo pior."
A agência de notícias Kyodo informou que 2.000 corpos foram encontrados na segunda-feira em duas cidades do litoral.
Cidades grandes e pequenas sumiram sob a parede de água que atingiu a costa japonesa depois do terremoto de sexta-feira.
"Quando o tsunami chegou, eu estava tentando retirar pessoas. Olhei para trás, e então foi como a cena de computação gráfica que eu vi no filme 'Armageddon'. Achei que era um sonho. Era realmente o fim do mundo", disse Tsutomu Sato, de 46 anos, em Rikuzantakata, uma cidade na costa do nordeste do Japão.
Em Tóquio, os trens de subúrbio estão parados, e os supermercados estão com prateleiras vazias, já que os caminhões ficaram impossibilitados de fazer entregas.






Reuters

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