domingo, 6 de março de 2011

''O poder é solitário''. Entrevista especial com Izalene Tiene


No sentido de homegear mulheres nos seu dia internacional com pessoas que realmente conheço posto aqui uma entrevisata de Izalene Tiene a IHU On-Line. Conheço Izalene desde 1977 no movimento de comunidade de base, novimento´popular da Assembléia do Povo, Nas lutas sindicais e no Partido dos trabalhadores.

Para a ex-prefeita de Campinas, a mulher norteia suas atividades a partir de uma noção de geração de vida e “pode haver uma grande diferença quando ela põe essa característica a serviço do bem público”.


Confira a entrevista.

Uma mulher que coloca o dom da geração de vida no seu dia-a-dia e, principalmente, nos seus atos políticos. Assim é possível definir Izalene Tiene depois dessa entrevista que concedeu, por telefone, à IHU On-Line. Ela foi eleita, em 2000, vice-prefeita de Campinas e assumiu o principal cargo administrativo da cidade depois que o prefeito foi assassinado. Além de ter de enfrentar toda a pressão e os problemas que uma cidade como Campinas tem, Izalene precisou trabalhar contra aqueles os motivos que foram apontados como razões da morte de Toninho, o prefeito eleito. “O espaço público é realmente muito mais ocupado pelo homem, embora já tenhamos um avanço na participação da mulher, mas, na questão política e do poder, ainda precisamos caminhar muito”, avalia ela hoje, quase cinco anos depois de deixar a prefeitura da cidade do interior de São Paulo. Nesta entrevista, Izalene relembra sua atuação na política de Campinas e reflete sobre a questão do poder, como o via antes de assumir a prefeitura, durante sua administração e atualmente. “O poder é solitário”, observa.

Izalene Tiene é assistente social, por formação. Atuou em diversos movimentos sociais, principalmente ligados às mulheres e à Igreja. Cumpriu o mandato como prefeita de Campinas até dezembro de 2004 e não disputou reeleição. Foi a primeira mulher a administrar Campinas.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A senhora foi prefeita de Campinas por quase quatro anos. O poder ainda é refratário à participação das mulheres?

Izalene Tiene – Sim, eu assumi no dia 11 de setembro de 2001 até 31 de dezembro de 2004. O prefeito titular  foi assinado e eu assumi como sua sucessora. O poder é mesmo muito refratário porque nós, mulheres, histórica e culturalmente, temos uma participação muito mais voltada para um espaço restrito, que seria o doméstico. O espaço público é realmente muito mais ocupado pelo homem, embora já tenhamos um avanço na participação da mulher. De qualquer modo, na questão política e do poder, ainda precisamos caminhar muito. Ou seja, a mulher é minoria ainda em relação à participação em instâncias decisórias.

IHU On-Line – Como prefeita sentiu-se discriminada ou não compreendida pelo fato de ser mulher?

Izalene Tiene – Também pelo fato de ser uma mulher, mas por ter ainda como origem na participação política o movimento popular, e, além disso, com participação no movimento de mulheres. Então, esta origem também favoreceu muito uma discriminação de classes. Campinas é uma cidade que é o berço da República Brasileira, porque nela viveram os barões do café e foi onde os escravos foram libertados por último. Há, com isso, em Campinas, uma história muito triste de muita exploração do escravo negro. Isso porque o poder, na cidade, sempre esteve na mão de um pequeno grupo, representando a burguesia. Em 1989, o PT já havia ganhado aqui, mas não governamos porque o prefeito eleito acabou mudando de partido e de projeto político. Então, quando retomamos, dez anos depois, realmente foi uma conquista muito importante. O prefeito eleito tinha um carisma e uma forte relação com o povo.

Como sucessora, foi uma decepção, porque eu era vice e mulher. Uma mulher, aliás, como falei, com
origem nos movimentos populares, que representava a força dos trabalhadores e trabalhadoras. Por isso, a discriminação não foi apenas de gênero, mas de classe também.

IHU On-Line – Além de sua militância política, a senhora também é militante cristã. Há mais preconceito contra as mulheres na política ou na Igreja?

Izalene Tiene – Considero que é uma discriminação diferente. A Igreja tem um poder instituído em que a mulher tem pouco espaço. Então, as conquistas que obtivemos através das comunidades eclesiais de base foram muito grandes. A questão das comunidades eclesiais de base abriu, e ainda hoje abre, um espaço diferente de participação, embora ainda estejamos muito longe de exercer poder na Igreja. A mesma coisa acontece na sociedade, no partido, mesmo sendo o Partido dos Trabalhadores, pois também há uma diferença muito grande entre os espaços dos homens e os espaços das mulheres. Pelo menos, já conseguimos espaço.

"Por que a mulher, mesmo tendo pouco espaço, continua tão participativa na Igreja? "

Na Igreja, há um poder instituído que é um outro tipo de dominação. Porque a mulher, mesmo tendo pouco espaço, continua tão participativa na Igreja? Essa é uma questão que nos fazemos muito. No partido, você tem uma disputa, um espaço aberto pela cota, mas ainda não ocupamos todo o espaço possível. É, realmente, uma questão histórica e cultural.

IHU On-Line – O Partido dos Trabalhadores e o governo Lula desencantaram muitos militantes, a senhora se inclui entre aqueles militantes que perderam o entusiasmo com a política partidária?

Izalene Tiene – Me incluo. A meu ver, é um momento em que tínhamos metas e projetos para um Brasil e no qual poderíamos ter muito mais participação e conquistas por parte dos trabalhadores e das trabalhadoras. Ganhamos as eleições num período em que a classe trabalhadora não estava tão organizada. Foi um marco importante a vitória nas eleições em 2002, no entanto num período em que tivemos problemas. Ao mesmo tempo, tivemos posturas, na construção de um projeto de um Brasil para todos e todas que não corresponderam ao que construímos historicamente. Então, essa é uma decepção. Realmente, eu sou uma das pessoas que compartilho dessa decepção, porque, com a experiência que tivemos em Campinas, para mim foi muito importante o controle social através de um instrumento que eu valorizo muito e acho muito ruim o governo federal não aplicar, que é o Orçamento Participativo. Para mim, o Orçamento Participativo tem uma qualidade educativa para a participação do povo, para este entender como funciona o Poder Público, os direitos que possui, sua responsabilidade. A minha decepção está acompanhada de uma frustração por não utilizarmos os instrumentos que o próprio partido tanto divulgou e colocou em todos os seus programas.

IHU On-Line – Como pesquisadora das políticas públicas de assistência social, como a senhora avalia o programa social do governo Lula, particularmente o Bolsa Família?

Izalene Tiene – Nas políticas sociais, o governo avançou muito. Na minha área mesmo, que é a assistência

"O Bolsa Família precisa ser transitório"

social, tivemos conquistas muito importantes, de implantar o Sistema Unico de Assistência Social (SUAS) e fazer com que as pessoas tivessem atendimento mais contínuo, que deu uma outra qualidade para a assistência social que as pessoas precisam. Por outro lado, o Bolsa Família atendeu a uma necessidade, mas falta essa complementação ainda mais importante de tornar essa auxílio, essa ajuda econômica, universal, viável para todas as pessoas que necessitam. Já as pessoas que recebem essa ajuda não têm como complemento o envolvimento e a capacitação para que não dependam só da ajuda, e sim sejam inseridas no mercado de trabalho de forma digna. O Bolsa Família precisa ser transitório, porque as pessoas precisam ser emancipadas com cidadania.

IHU On-Line – Na sua experiência de prefeita, qual foi o acontecimento mais gratificante e o que mais lhe decepcionou?

Izalene Tiene – O mais gratificante foi a implantação do Orçamento Participativo, porque ele foi organizado segundo o modelo de Porto Alegre. As assembleias e os delegados foram escolhidos por regiões. Campinas tem um milhão e cem mil habitantes, e nós tínhamos 14 regiões onde as assembleias aconteciam. Os secretários e eu, como prefeita, estávamos muito presentes, o que favorecia a solução dos problemas in loco. Realmente, em quatro anos, pudemos constatar o quanto as pessoas se apoderaram das informações e também de uma outra relação com os representantes do governo. Isso nos deu muita satisfação. Deixamos uma cidade que apontava para o futuro.

A minha grande decepção, em primeiro lugar, foi a perda do nosso prefeito. A segunda foi o embate que tivemos com os poderosos da cidade, que tinham em mãos a mídia. Outra foi que o partido não estava unido para defender um governo popular e democrático.

IHU On-Line – O pós-poder é solitário?

Izalene Tiene – É solitário antes, porque quando você está disputando faz isso contra outras pessoas; durante, porque é muito difícil, à medida que as pessoas te atribuem um poder que realmente você não tem, ou seja, o poder é administrativo, mas não se tem um poder de fato, porque o poder econômico é muito mais determinante; e depois é mais ainda porque se fica com todas as consequências. Eu estou respondendo 23 processos e tentando fazer tudo de acordo com a lei de responsabilidade fiscal. Ou seja, o político fica sozinho, porque passou e continua respondendo por coisas que não tem mais instrumentos que te ajudem e possam te dar suporte para responde a questões que estão lá na prefeitura. Ele é realmente muito solitário. No exercício do poder, onde eu encontrei mais apoio foi na participação das mulheres, no Orçamento Participativo, bem como em toda a organização administrativa. Ou seja, tive muito apoio das mulheres no exercício do mandato.

IHU On-Line – Como a senhora vê o destaque que Dilma Roussef vem ganhando nos últimos tempos, tanto no governo quanto na mídia? Acha que ela realmente será candidata à presidência?

Izalene Tiene – Eu penso que ela realmente será candidata a presidente porque o Lula tem hoje uma aceitação muito grande, e ela é sua candidata. Esse é um ponto importante, porque convenceu o partido. Hoje o PT não indica outro nome. Ela também tem competência e vem demonstrando ser uma pessoa muito competente numa política de desenvolvimento. Espero que a Dilma também nos represente como mulher, num envolvimento protagonista, tendo cuidado de ser mais abrangente, com visão mais horizontal de um Brasil que seja mesmo para todos e todas. Espero que ela, como mulher, tenha um governo com uma horizontalidade e um olhar melhores.



IHU On-Line – O Brasil está pronto para ter uma mulher na presidência?

Izalene Tiene – Não, a meu ver, o Brasil precisa melhorar muito para ter uma mulher na presidência. Esta proposta é muito nova, pois temos uma resistência muito grande ao novo. As mulheres são maioria no eleitorado, mas apresentam uma participação pequena e de forma mais conservadora. Espero que, se a Dilma for a candidata, ela tenha sensibilidade e capacidade de se dirigir mais às mulheres e fazer com que todas tenhamos uma consciência política mais apurada.

IHU On-Line – Como a senhora percebe o poder e o pensamento feminino no mundo contemporâneo?

Izalene Tiene – Penso que nós, mulheres, temos uma oportunidade de exercer o poder como serviço. Porque é a nossa especificidade. A mulher tem uma história de serviço, está mais voltada para o cuidado da criança, do idoso, em todos os espaços em que ocupa. No mundo contemporâneo, precisamos muito de cuidados: cuidar da natureza, das pessoas etc. Nós, mulheres, temos isso já desenvolvido. Se houver maior participação da mulher no planejamento e na execução de uma política onde tenhamos maior cuidado com as pessoas, e por aí passa maior cuidado com a natureza, vamos garantir uma outra qualidade de vida. Então, nós, mulheres, geramos vida, não sozinhas, mas somos geradoras de vida. Essa geração de vida passa por nortear uma política de geração de vida. E pode haver uma grande diferença quando a mulher põe essa característica a serviço do bem público.

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