segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Judas Iscariotes: de traidor a herói

Judas Iscariotes: de traidor a herói
Documentos históricos questionam a imagem de vilão do apóstolo acusado de trair Jesus Cristo

Judas Iscariotes, o apóstolo que, por 30 moedas, entregou Jesus Cristo aos soldados romanos que o crucificaram, não foi um traidor, mas, sim, um herói. Judas agiu dessa maneira a pedido do próprio Jesus, que tinha de ser crucificado para voltar como o salvador da humanidade. Essa interpretação ganhou força graças a um antigo manuscrito do século 4 que só agora, depois de quase 17 séculos, foi revelado ao público. Chamado de Evangelho de Judas, o documento foi descoberto nos anos 1970 numa caverna no Egito e resistiu ao tempo graças ao clima seco da região. Desde então o manuscrito passou por diversas mãos até ser entregue em 2001 à Fundação Mecenas, em Basiléia, na Suíça. Trata-se de um documento de 31 páginas de papiro, cujo texto em egípcio antigo (o copta) teria sido escrito pelos cainitas, uma seita herética do início do cristianismo. O conteúdo, divulgado na última Páscoa pela revista National Geographic, é motivo de acalorados debates dentro e fora da Igreja Católica e, acima de tudo, revela quão pouco ainda sabemos sobre a vida de Jesus Cristo.

Há registros sobre a existência do Evangelho de Judas desde o século 2, quando Irineu, bispo de Lyon, na Gália romana, escreveu um tratado intitulado Contra as Heresias, no qual condena os cainitas por venerarem Judas. “Eles (os cainitas) produziram uma história fictícia, a qual chamam de Evangelho de Judas”, afirma o texto, escrito no ano 180. Estudiosos apontam que o manuscrito recentemente traduzido pelo suíço Rodolphe Kasser, um dos maiores especialistas em língua copta do mundo, é do século 4 e seria uma versão do original grego do século 2 a que se refere Irineu. O bispo de Lyon indicou os quatro evangelhos canônicos – de Mateus, de João, de Marcos e de Lucas – como os únicos que os cristãos deveriam ler. Sua lista acabou se tornando a política oficial da Igreja e perdura até hoje. Os demais manuscritos dos primórdios do cristianismo foram considerados apócrifos (não reconhecidos pela Igreja), entre eles o Evangelho de Maria, sobre Maria Madalena, e o Evangelho de Judas. Acredita-se que os autores dos textos apócrifos pertenciam, em sua maioria, ao gnosticismo, movimento religioso que rivalizou com a Igreja Católica nos primeiros séculos depois de Cristo.

Por essa razão, Judas sempre foi tido como um dos grandes vilões da Bíblia. Basta olhar no dicionário: judas é sinônimo de traidor, do indivíduo que trai a confiança dos outros. Todos os anos, em dezenas de países, bonecos feitos à sua imagem são malhados e queimados em praça pública no Sábado de Aleluia. Um castigo simbólico contra alguém que, segundo os evangelhos tradicionais, entregou o mestre aos carrascos no Jardim das Oliveiras, identificando-o com um beijo na face. Na nova interpretação, no entanto, Judas teria agido a pedido de Jesus, mesmo sabendo que depois seria perseguido por causa de seu ato. “Você será amaldiçoado”, teria alertado Jesus a Judas, seu discípulo favorito. Cumprida sua missão, Judas não teria se enforcado, como registram os evangelhos canônicos, mas se retirado para meditar no deserto.

“Essa descoberta espetacular de um texto antigo, não-bíblico, é considerada por especialistas uma das mais importantes atualizações dos últimos 60 anos no que se refere ao nosso conhecimento sobre a história e a diferentes opiniões teológicas sobre o começo da era cristã”, afirmou Terry Garcia, vice-presidente-executivo da National Geographic, ao divulgar o manuscrito. A opinião é compartilhada pelo especialista em escrituras bíblicas Charles Hedrick, professor da Universidade do Missouri, nos Estados Unidos. “Nesse texto, Judas não é o vilão. É o mocinho”, afirma. Na principal passagem do documento, Jesus diz a Judas: “Tu superarás todos eles. Tu sacrificarás o homem que me cobriu”. Segundo estudiosos, a frase significa que Judas ajudaria a libertar o espírito de Jesus de seu invólucro carnal.
Judas Iscariot: a traitor to hero
Historical documents question the image of the apostle villain accused of betraying Jesus Christ


Judas Iscariot, the apostle who, for 30 coins, handed Jesus Christ to the Roman soldiers who crucified him, was not a traitor, but rather a hero. Judas acted this way at the request of Jesus himself, who had to be crucified to return as the savior of mankind. This interpretation has gained momentum thanks to an ancient manuscript of the fourth century that only now, after nearly 17 centuries, it was revealed to the public. Called the Gospel of Judas, the document was discovered in the 1970s in a cave in Egypt and resisted the time thanks to the dry climate of the region. Since then, the manuscript passed through several hands until it is delivered in 2001 to the Maecenas Foundation in Basel, Switzerland. It is a document of 31 pages of papyrus, which reads in ancient Egyptian (Coptic) have been written by the Cainites, a heretical sect of early Christianity. The content, released last Easter for National Geographic magazine, is a matter of heated debate inside and outside the Catholic Church and, above all, it reveals how little we still know about the life of Jesus Christ.
There are records about the existence of the Gospel of Judas from the second century when Irenaeus, Bishop of Lyons in Roman Gaul, wrote a treatise called Against Heresies, which condemns the Cainites revere by Judas. "They (the Cainites) produced a fictional story, which they style the Gospel of Judas," says the text, written in 180 years. Scholars point out that the manuscript recently translated by Swiss Rodolphe Kasser, a leading expert on Coptic language in the world, is the 4th century and was one of the original Greek version of the second century Irenaeus referred to. The bishop of Lyons said the four canonical Gospels - of Matthew, John, Mark and Luke - as the only Christians should read. His list eventually became the official policy of the Church and continues today. The remaining manuscripts of early Christianity were considered apocryphal (not recognized by the Church), including the Gospel of Mary, about Mary Magdalene and the Gospel of Judas. It is believed that the authors of the apocryphal texts belonged mostly to Gnosticism, a religious movement that rivaled the Catholic Church in the first centuries after Christ.
For this reason, Judas was always considered one of the great villains of the Bible. Just look in the dictionary: Judas is synonymous with traitor, the individual who betrays the trust of others. Every year, dozens of countries, dolls made in his image are spotted in the public square and burned the Holy Saturday. A symbolic punishment against anyone who, according to the traditional gospels, handed to the master executioner in the Garden of Olives, identifying him with a kiss on the cheek. In the new interpretation, however, Judas would have acted at the request of Jesus, even though it was later persecuted for his act. "You will be cursed", warned Jesus to Judas, his favorite disciple. Fulfilled its mission, Judas had hanged himself, as recorded in the canonical gospels, but retired to meditate in the desert.
"This spectacular discovery of an ancient text, unbiblical, is considered by experts one of the most important upgrades for 60 years with regard to our knowledge about the history and different theological opinions about the beginning of the Christian era," said Terry Garcia, executive vice president of National Geographic, in releasing the manuscript. The opinion is shared by the specialist in biblical scriptures Charles Hedrick, a professor at the University of Missouri, USA. "In this text, Judas is not the villain. It is the good guy, "he says. In the main document passage, Jesus tells Judas: "You will exceed all of them. You will sacrifice the man that hath overwhelmed me. " According to scholars, the phrase means that Judas would help liberate the spirit of Jesus of its housing flesh..


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